Explanation
Peixes nativos e introduzidos: por que importa distingui-los em Espanha
A origem de um peixe define-se em relação a um território; o facto de ser introduzido não basta, por si só, para o classificar como invasor. Em Espanha, as introduções de peixes exóticos invasores ameaçam os peixes fluviais nativos, muitos deles endémicos.
A origem depende do território
Um peixe nativo é próprio da zona considerada; um peixe exótico ou não nativo encontra-se fora da sua área de distribuição natural. A categoria depende, portanto, do local de referência. Além disso, “introduzido” descreve uma espécie que chegou a um local fora da sua área natural, de forma intencional ou acidental: isso não significa automaticamente que cause danos nesse local. Segundo a definição do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos, uma espécie aquática invasora é uma espécie que não é nativa do ecossistema e cuja introdução causa ou pode causar danos económicos, ambientais ou à saúde humana. Esta definição esclarece a distinção, embora o seu enquadramento institucional não substitua as normas aplicáveis em Espanha.
Por que a distinção é importante em Espanha
Em Espanha, a estratégia do Ministério para a Transição Ecológica assinala que as espécies exóticas invasoras afetam negativamente os peixes fluviais nativos e que a aclimatação de peixes exóticos é um dos principais fatores que ameaçam a sua sobrevivência e integridade genética. O documento destaca a especial vulnerabilidade dos ecossistemas de água doce, relacionada com o seu uso intensivo, a ligação entre cursos de água e massas de água e a capacidade de dispersão dos organismos aquáticos. Indica também que a ictiofauna de água doce da Península Ibérica apresenta um elevado grau de endemicidade: das 51 espécies exclusivamente continentais que enumera, 41 são endémicas. Confundir uma espécie local com uma introduzida — ou tratar todas as espécies introduzidas como invasoras — pode, por isso, tornar menos clara tanto a origem como o tipo de risco descrito.
Um exemplo concreto: o achigã
O achigã (Micropterus salmoides) é nativo da América do Norte e é considerado invasor na Península Ibérica. Um estudo comparou juvenis desta espécie no rio Bullaque, em Espanha, e no riacho Murray, dentro da sua área nativa. No Bullaque, os juvenis eram mais abundantes, apresentavam mais estômagos cheios e tinham melhor condição corporal; também consumiam mais invertebrados bentónicos. No Murray, os peixes eram a presa mais importante. O estudo encontrou ainda diferenças entre as populações na riqueza e diversidade das presas e na amplitude do nicho trófico.
O que estas diferenças mostram — e o que não mostram
A comparação documenta diferenças entre duas populações em dois cursos de água específicos; por si só, não demonstra o que as causou nem permite generalizar o padrão a todos os rios ou a todos os peixes introduzidos. Os autores interpretam a plasticidade trófica observada como uma possível ajuda ao sucesso invasor do achigã. Propõem também que cursos de água ibéricos regulados possam oferecer alimento e habitat adequados e menor pressão de predação, funcionando assim como fontes de recrutamento. São explicações possíveis apresentadas pelo estudo, não uma causa demonstrada das diferenças observadas.
Reconhecer a origem exige contexto
A aparência de um peixe, por si só, não permite determinar aqui se é nativo ou introduzido. A resposta depende da identificação correta da espécie e de conhecer a sua distribuição natural em relação ao local onde se encontra. O exemplo do achigã mostra por que é importante manter separadas três perguntas: de que espécie se trata, se é originária do território e se a sua presença produz ou pode produzir impactos.
Fontes
- Trophic plasticity of invasive juvenile largemouth bass ... · agris.fao.org
- Aquatic Invasive Species · National Park Service
- Estrategia de gestión, control y posible erradicación de las especies exóticas invasoras presentes en medios acuáticos continentales · Ministerio para la Transición Ecológica y el Reto Demográfico